Diante da pressão popular e do desgaste político, a Câmara dos Deputados recuou da tentativa de votar a chamada PEC da blindagem. A proposta — que visava a blindagem de parlamentares contrários a investigações e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) —saiu de pauta sem nova data para análise, após forte rejeição pública e racha interno entre os líderes da Casa.
A proposta representava um retrocesso institucional disfarçado de defesa das prerrogativas parlamentares. Entre os pontos mais críticos, estavam dispositivos que exigiam aval de dois terços do STF para autorizar prisões preventivas contra deputados e senadores, além da proibição de abertura de inquéritos sem autorização expressa do Congresso. Em algumas versões, até mesmo a suspensão de investigações seria possível, com direito a voto secreto — uma verdadeira autorização para o corporativismo e a impunidade.
O texto também restringia ainda mais as hipóteses de prisão em flagrante, criando uma barreira inédita à responsabilização de políticos, mesmo em casos graves.
Reações
A reação foi imediata. A hashtag #PECdaImpunidade dominou as redes sociais, refletindo a indignação popular diante do que muitos viram como um golpe silencioso contra o Estado de Direito. Parlamentares que inicialmente apoiavam a medida passaram a recuar, temendo o desgaste junto ao eleitorado. A proposta, de difícil explicação ao público, foi lida como o que de fato era: uma tentativa de autoproteção em meio à crise de confiança nas instituições.
O líder do PL, Sóstenes Cavalcante, um dos principais articuladores da medida, reconheceu o erro de cálculo e abandonou a defesa da PEC, classificando o movimento como “politicagem barata”. Em entrevista ao ICL Notícias, disparou contra o centrão: “Eles agora que coloquem a cara”.
Nos bastidores, a proposta fracassou também pela falta de coesão e clareza. O relator Lafayette de Andrada ainda trabalhava com minutas não consolidadas, e os líderes sabiam que não havia votos suficientes para a aprovação. O presidente da Câmara, Hugo Motta, optou por não remarcar nova data, em uma tentativa de evitar uma derrota ainda mais humilhante em plenário.
Reação contrária
Para setores da oposição e até mesmo de partidos aliados, a movimentação foi descolada da realidade nacional, marcada por crise econômica, desemprego e descrença na classe política. Enquanto a população sofre com problemas concretos, parte do Congresso tentou empurrar um projeto que visava apenas proteger a si próprio — um reflexo claro das verdadeiras prioridades de uma elite política que insiste em legislar em causa própria.
O adiamento da PEC não representa uma vitória definitiva. É apenas uma pausa estratégica de um jogo perigoso, que deve continuar nos bastidores. A sociedade civil e a imprensa independente precisam permanecer atentas. A tentativa de blindagem pode ter recuado, mas a ameaça à democracia segue viva.