A Polícia Federal, em parceria com a Receita Federal e o Ministério Público de São Paulo (MPSP), deflagrou nesta quinta-feira (28) três operações simultâneas — Carbono Oculto, Quasar e Tank — para desarticular um gigantesco esquema de lavagem de dinheiro operado pelo PCC, que teria movimentado R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
Primeiramente, o esquema utilizava fintechs e fundos de investimento com sede na Avenida Faria Lima, em São Paulo, para ocultar e blindar recursos oriundos do tráfico de drogas e da sonegação no setor de combustíveis. Ao menos 42 endereços na região financeira da capital paulista foram alvos das ações.
Pix, fake news e blindagem com aval de fintechs
Segundo a Receita Federal, o grupo criminoso se aproveitou de brechas no sistema financeiro e do baixo nível de fiscalização sobre fintechs, como o BK Bank, para movimentar grandes somas com menor risco de rastreamento. A instituição é apontada como um “buraco negro” financeiro, operando com contas do tipo bolsão, que misturam os recursos de todos os clientes.
Esse tipo de operação, de acordo com as autoridades, poderia não ocorrer com o fortalecimento das regras de compliance. Ela previa uma instrução normativa da Receita que ampliava a fiscalização sobre operações via Pix e fintechs. Porém, a norma sofreu revogação após campanhas de desinformação nas redes sociais, inclusive por parlamentares como Nikolas Ferreira (PL-MG). Ele afirmava falsamente que o governo usaria os dados para “vigiar cidadãos comuns”.
A subsecretária da Receita, Andrea Costa Chaves, declarou que a revogação prejudicou o monitoramento de riscos. “A instrução foi alvo de fake news, e hoje vemos o resultado: perdemos capacidade de detectar movimentações como as do PCC”, disse.
Faria Lima e o papel dos fundos de investimento
A operação também apontou que 40 fundos de investimento — alguns vinculados à gestora Reag Investimentos — usados para a blindagem patrimonial da facção. Assim, tal ação facilitava a compra de imóveis, usinas, caminhões e até uma mansão em Trancoso (BA). A Receita estima que R$ 30 bilhões desses fundos tenham sido controlados, direta ou indiretamente, pelo PCC.
A Reag, em nota, negou envolvimento e afirmou que nunca geriu alguns fundos citados e declarou que outros destes já passaram por liquidação.
Apesar do envolvimento de instituições da Faria Lima, a Receita reforçou que a maioria dos fundos do mercado são legítimos. Desse modo, os investigados são exceções dentro do sistema.
O esquema do PCC em quatro etapas
- Importação e adulteração de combustíveis, com sonegação fiscal (prejuízo estimado de R$ 8,6 bilhões);
- Lavagem de dinheiro via postos de gasolina, lojas de conveniência e padarias;
- Ocultação via fintechs, dificultando o rastreio;
- Blindagem patrimonial por meio de fundos e gestoras de investimento.
A operação foi classificada pelo presidente Lula como a maior resposta do Estado ao crime organizado, e pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, como a maior ofensiva contra o PCC na história do país.