Cientistas que analisaram imagens de satélite e dados sismológicos apontam que um grande deslizamento de terra, ocorrido simultaneamente ao colapso de uma geleira, provavelmente provocou as enchentes repentinas que deixaram centenas de mortos entre o Nepal e o Tibete.
Glaciologistas e geólogos já haviam identificado o desprendimento de um enorme bloco de gelo na manhã de quarta-feira (26). Porém, novas imagens obtidas nesta quinta-feira (27), com menor cobertura de nuvens, indicaram que uma grande porção da rocha que sustentava a geleira também desabou.
“A rocha sobre a qual a geleira estava apoiada desabou”, explicou Kristen Cook, especialista em geomorfologia da Université Grenoble Alpes. Segundo ela, a combinação dos dois eventos lançou milhões de toneladas de rocha e gelo montanha abaixo.
“Foi um colapso muito maior do que conseguimos observar inicialmente nas imagens de satélite”, afirmou a pesquisadora.
A massa de gelo e rocha se transformou em uma mistura de lama e água ao descer pela encosta. A intensidade do movimento foi tamanha que o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) registrou o fenômeno como um evento sísmico de magnitude 5,2.
Segundo o sismólogo Stephen Hicks, da University College London, o fluxo teria movimentado aproximadamente 400 milhões de toneladas de material. Portanto, estima-se que a energia liberade equivale a cerca de 1 mil toneladas de TNT.
Mudanças climáticas
O deslizamento ocorreu na face norte do Langtang Lirung, montanha localizada no Nepal, próxima à fronteira com o Tibete. Ela está a aproximadamente 5,2 mil metros de altitude.
Os pesquisadores consideram que o aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas pode ter contribuído para a instabilidade da encosta. Todavia, os estudiosos também ressaltam que ainda não é possível apontar uma causa definitiva.
“Essencialmente, um trecho da encosta da montanha desabou”, explicou o geólogo Daniel Shugar, da University of Calgary.
A força do material que desceu pela montanha também teria incorporado água e sedimentos dos rios, ampliando o volume das correntes que avançaram pelos vales do Himalaia. Vilarejos foram atingidos, centenas de pessoas morreram e mais de 1,4 mil permanecem desaparecidas.
Cientistas investigam origem do grande volume de água
Uma das principais dúvidas é explicar por que a quantidade de água liberada pelas enchentes foi tão elevada. Uma das hipóteses é que o deslizamento tenha formado barragens naturais nos rios, que posteriormente se romperam e liberaram grandes volumes de água de uma só vez.
O glaciologista Mohan Bahadur Chand, da Universidade de Katmandu, afirmou que uma possibilidade é que os detritos tenham bloqueado temporariamente o rio Lhende, provocando um transbordamento de grandes proporções.
Imagens registradas no posto de fronteira de Gyirong, entre China e Nepal, mostram uma enorme parede de água avançando pela região.
Para os especialistas, imagens de satélite com maior resolução ajudarão a determinar a quantidade de gelo e rocha desprendida e o volume de água que percorreu os rios.
A especialista em hidrologia e meteorologia Dibas Shrestha, da Universidade Tribhuvan, resumiu a dimensão do fenômeno:
“não conseguia sequer imaginar o volume da mistura de gelo, água e rocha que testemunhamos rio abaixo”.
