O ator e diretor Pascoal da Conceição apresenta o espetáculo solo “Bardo Mestiço” no dia 11 de agosto, às 19h, no Teatro Gebes Medeiros (Av. Eduardo Ribeiro, 937, Centro). A montagem resulta do projeto “Oficina-Espetáculo Macunaíma – 100 Anos”, realizado pelo artista em Manaus entre os dias 4 e 10 de agosto. Além disso, ao final da apresentação, os participantes da formação entram em cena para apresentar uma sequência criada coletivamente durante a oficina. O espetáculo é gratuito e aberto ao público.
A Associação dos Artistas Cênicos do Amazonas – Arte&Fato (AACA) idealizou a programação do projeto “Oficina-Espetáculo Macunaíma – 100 Anos”, com apoio de Intercity Manaus Hotel, Restaurante Peking, Espeto Turismo Adrianópolis e Piaf Restaurante. Nesse sentido, a AACA utiliza o recurso do Prêmio Ações Continuadas 2025 – Teatro para realizar a oficina e o espetáculo em Manaus. A Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), promoveu a premiação, conquistada pela AACA.
Creuza Borges e Pascoal da Conceição assinam a direção do espetáculo. Mais do que um monólogo, “Bardo Mestiço” apresenta uma biografia artística de Mário de Andrade e costura poesia, memória, teatro e diferentes matrizes culturais brasileiras. O título, por sua vez, faz referência ao próprio escritor, que se autodenominou “bardo mestiço” no poema “Meditação sobre o Tietê”, seu último texto poético.
Trajetória com Mário de Andrade
Segundo Pascoal da Conceição, a montagem reúne mais de três décadas de contato com a obra de Mário de Andrade. “O espetáculo nasceu de mais de 30 anos de trabalho com a obra de Mário de Andrade. Desde 1989, tenho interpretado poesias, crônicas e conferências do escritor. ‘Bardo Mestiço’ filtra essa trajetória pela criação e compreensão minha sobre quem foi o artista/ator Mário de Andrade. A proposta é refletir sobre identidade, Brasil, arte e tempo. Sobre o que significa ser brasileiro, mestiço, moderno. E sobre o fato de eu me considerar um ator aprendiz”, explica.
A montagem percorre momentos importantes da trajetória de Mário de Andrade. Primeiro, o espetáculo parte da crônica “Barata”, publicada no Estado de São Paulo em 1939, após a saída forçada do escritor do Departamento de Cultura e seu período de “exílio” no Rio de Janeiro, próximo ao Palácio do Catete. Em seguida, passa por “Pauliceia Desvairada” e pela Rua Aurora, onde Mário nasceu, até chegar a “Macunaíma”, obra central da dramaturgia.
Nesse momento, Pascoal incorpora ao espetáculo o personagem Doutor Abobrinha, que interpretou no programa “Castelo Rá-Tim-Bum”, em uma brincadeira com o universo de “Macunaíma”. Por fim, a apresentação termina com a participação dos integrantes da Oficina de Teatro Macunaíma 100 Anos. O grupo sobe ao palco com o ator para apresentar a cena do capítulo “Maioridade”, desenvolvida coletivamente durante a formação.
Oficina transforma o espetáculo
O ator explica que a oficina funcionou como espaço de aprendizado, experimentação e criação cênica. Além disso, os encontros serviram para aproximar a formação artística da própria montagem. “A oficina foi laboratório e palco. Durante os encontros, o grupo trabalhou a cena do capítulo ‘Maioridade’: ‘Eu te ensino a fazer renda e tu me ensina a namorar’, não é assim a música? É isso que fazemos: namoros. Namoramos o público com uma cena criada aqui, com todos os participantes da oficina. Ensaiamos, conversamos, trocamos ideias, namoramos, enfim e agora levamos para o teatro, com todo o grupo em cena”, afirma.
O processo colaborativo reuniu diferentes aspectos da construção teatral, como canto, figurino e coreografias. Ao mesmo tempo, o contato com artistas que vivem e produzem no centro da Amazônia ampliou, segundo Pascoal, sua experiência artística.
“De forma natural e muito potente, envolvendo cantar, figurino, coreografias. Os artistas que participam da oficina já têm grande conhecimento e uma produção artística pulsante. Eu moro em São Paulo, longe da floresta, longe da Amazônia. Me encontrar com artistas que estão no centro da Amazônia foi um aprendizado que me comove a cada dia. Aprendi demais com eles. É uma troca real. O espetáculo não seria o mesmo sem essa escuta e sem essa hospitalidade”, emociona-se.
Diversidade
Para Pascoal da Conceição, o espetáculo nasce do encontro entre diferentes territórios, linguagens e tradições artísticas. Dessa forma, a montagem aproxima referências eruditas e populares e cria uma ponte entre o Sudeste e a Amazônia.
“O espetáculo é o encontro do erudito com o popular, do livro com a rua, do sudeste com a Amazônia, como é o livro ‘Macunaíma’, de Mário de Andrade. É um Brasil mestiço, falado em cena por um ator que aprendeu com diretores como Zé Celso, Bibi Ferreira, Sofredini, um ator aprendiz, como me considero, e que agora aprende com os artistas daqui”, destaca.
Cenário, figurino e sonoplastia
A estética de “Bardo Mestiço” segue uma proposta essencial, com poucos elementos cenográficos e destaque para a palavra, o corpo e a imaginação do público. O figurino parte de uma base simples e neutra, que permite ao ator transitar entre diferentes momentos e personagens da obra de Mário de Andrade. Além disso, peças entram e saem de cena para marcar as mudanças de tempo e de obra.
A cenografia também reduz os elementos e utiliza objetos simbólicos relacionados ao universo de Mário, como um livro, uma mesa e referências à cidade. Por outro lado, a sonoplastia combina trilha original e sons ambientes: passa pelo silêncio associado à leitura, pelos ruídos da cidade de São Paulo e pelos cantos e ritmos que remetem à floresta no momento dedicado a “Macunaíma”.
“É um espetáculo essencial. Pouco cenário, muita palavra e corpo. De figurino, tem uma base simples, neutra, que me permite transitar entre o cronista, o poeta e o Macunaíma. Peças que entram e saem para marcar as passagens de tempo e de obra. O palco é preenchido pela presença do ator e pela imaginação do público. Usamos poucos objetos-símbolo que remetem ao universo do Mário: um livro, uma mesa, a cidade. Tem trilha original e sons que ambientam. Vai do silêncio da leitura, ao barulho da cidade de São Paulo, aos cantos e ritmos que lembram a floresta quando chegamos em Macunaíma. A música ajuda a costurar o tempo do poeta com o tempo de hoje”, destaca.
Troca de experiências
A aproximação entre formação e apresentação artística também ocupa um lugar central no projeto. Para Pascoal, a experiência promove uma troca de conhecimentos entre artistas e participantes e leva esse aprendizado para o palco. Assim, a oficina não funciona apenas como espaço de formação, mas também como parte do processo criativo.
“Continuamos descobrindo isso aos poucos. Não dá pra ensinar o que todos já nasceram sabendo. Somos Macunaíma, que nasceu se espreguiçando e desperta pra ganhar dinheiro e pra ver gente pelada. A importância está em que esse ‘troca-troca’ tem ganhos de todos os lados, de quem ensina um tanto do que sabe, porém, aprende com quem está aqui, e no final a gente mostra para o público o fruto dessa troca”, pontua.
As contribuições dos participantes também modificaram a montagem. Por isso, para Pascoal, um dos principais desafios consistiu em abrir mão do controle individual sobre a criação e permitir que outras experiências e perspectivas interferissem no espetáculo.
“O maior desafio é abrir mão do controle. É entender que o espetáculo não é só ‘meu, meu, meeeuuuuu’, como diz o Doutor Abobrinha. Tanto é que não estou sozinho na direção dos trabalhos, está comigo a diretora e atriz Creuza Borges, idealizadora do Circuito de Teatro em Português, há 25 anos, diretora do Grupo Dragão 7. Eu trago anos com Mário de Andrade, mas aqui nós encontramos outras visões, outros corpos, outros ritmos da Amazônia. Abrimos nossos ouvidos e nosso pulmões para ouvir e respirar tudo isso”, diz.
Cena inédita no palco
Entre as descobertas desse processo está a própria cena de “Maioridade”, que o grupo apresenta no Teatro Gebes Medeiros. Segundo Pascoal, a sequência ganhou uma nova forma a partir das ideias e da presença dos participantes da oficina. Além disso, o processo incorporou novas maneiras de apresentar a obra de Mário de Andrade, incluindo um trecho que o grupo falará em Tikuna.
“A descoberta é que o espetáculo cresce. A cena da ‘Maioridade’ que vamos fazer no Gebes Medeiros não existia assim antes. Ela nasceu aqui, com as ideias, com a energia e com a presença do grupo da oficina. Descobrimos jeitos novos de dizer Mário, como um trecho que será falado em Tikuna. Saímos dessa oficina maiores do que entramos”.
