Manaus (AM) – O projeto Arte Kambeba reúne mulheres indígenas em uma imersão de saberes ancestrais na Comunidade Três Unidos, às margens do Rio Cuieiras, na região do Rio Negro, a 60 quilômetros de Manaus. Realizada até domingo, 17 de maio de 2026, a programação inclui rodas de conversa, além de oficinas de artesanato, pintura corporal e empreendedorismo.
Além disso, a iniciativa, restrita a comunitárias e convidadas, fortalece a troca entre gerações e incentiva a transmissão da cultura Omágua-Kambeba, também conhecida como Kambeba.
Arte Kambeba
O projeto “Arte Kambeba: cultura e economia criativa na tradição do Povo Kambeba” parte da ideia de que cada peça artesanal guarda uma história. Dessa forma, colares, pulseiras, biojoias, grafismos e materiais retirados da floresta representam mais do que produtos: eles narram a presença Kambeba na Amazônia.
Nesse contexto, o eixo afetivo da iniciativa está na trajetória de Diamantina Kambeba, chamada carinhosamente de Babá. Matriarca, liderança indígena e artesã há mais de três décadas, ela iniciou a produção artesanal na Comunidade Três Unidos. Desde então, passou a transformar sementes da floresta em biojoias que carregam identidade, memória e pertencimento, fortalecendo também a economia local.
Para Tainara Kambeba, idealizadora do projeto e jovem ativista ambiental, a imersão surgiu do desejo de reconhecer esse legado e mantê-lo vivo entre mulheres, jovens e crianças. Segundo ela, o artesanato funciona como memória coletiva e caminho de fortalecimento identitário.
“O artesanato não é só uma simples biojoia. Pelo contrário, ele carrega a história, a identidade e, principalmente, a essência de cada mulher que produz aquilo. É esse conhecimento que a gente sempre tenta passar para as próximas gerações, reconhecendo a coragem das nossas matriarcas”, afirma.
Mais do que ensinar técnicas, o projeto promove um espaço de encontro e troca. Ao longo de três dias, as participantes compartilham histórias, práticas e experiências. Entre os destaques da programação está a roda de conversa com mulheres Kambeba, voltada à escuta coletiva e à continuidade dos saberes tradicionais.
Identidade Kambeba
Grande parte da cultura Kambeba é transmitida oralmente pelos anciões às novas gerações. Entre os saberes preservados pelo povo está a prática ancestral conhecida como Kapara. Antigamente, a técnica moldava a cabeça dos bebês em formato achatado com o uso de junco, uma fibra amazônica, e madeira, como forma de identificação cultural e diferenciação entre os povos indígenas.
Atualmente, essa prática foi ressignificada em um adorno de cabeça sagrado, símbolo da essência e da identidade Kambeba. Por isso, a produção de kaparas na oficina de artesanato se tornou o marco simbólico do projeto, dedicado à criação desses objetos e à preservação da cultura.
Essa transmissão de saberes também aparece na fala de Diamantina Kambeba, que define a imersão como um compromisso com o futuro de seu povo. Para a matriarca, ensinar mulheres e crianças é uma maneira de manter viva a memória Kambeba e evitar que os conhecimentos ancestrais se percam com o tempo.
“Quando eu comecei, não tínhamos muitas ferramentas como a gente tem hoje e eu fiz mesmo assim. Por isso, eu deixo uma mensagem para elas não desistirem da nossa cultura. Eu quero que elas continuem, as mulheres daqui, as crianças, para não acabar a nossa cultura”, apela.
Ao todo, a iniciativa beneficia cerca de 25 participantes e contribui para a economia criativa, responsável por apoiar a subsistência da comunidade.
Programação
As atividades acontecem entre os dias 15 e 17 de maio e integram saberes tradicionais, produção artística e empreendedorismo indígena feminino.
Entre as ações previstas estão:
- Oficina “Como começou a produção de artesanato na Comunidade Três Unidos”, com Diamantina Kambeba, liderança e artesã há 32 anos;
- Oficina “Grafismo corporal indígena do povo Kambeba”, com Tauana Kambeba, Tainara Kambeba e Kawatã, jovens artistas da comunidade;
- Oficina “Empreendedorismo indígena feminino”, com Neurilene Kambeba, liderança feminina Kambeba;
- Oficina “Elaboração de projetos para transformar ideias em ações”, com Moara Tuane, especialista em gestão pública, projetos e ESG;
- Além disso, haverá uma roda de conversa com mulheres indígenas Kambeba, reunindo as participantes em um momento de escuta, troca de experiências e fortalecimento coletivo.
Comunidade Três Unidos
A Comunidade Três Unidos, localizada no Rio Cuieiras, é um território Kambeba. Como povo de várzea, os Kambeba mantêm viva a relação com a floresta, o rio, a memória oral, o artesanato e o turismo de base comunitária. Nesse sentido, a comunidade não é apenas o local das atividades, mas também a principal fonte dos saberes compartilhados.
Ao realizar a imersão dentro do território, a ação fortalece a autonomia das mulheres Kambeba e valoriza o conhecimento construído a partir da vivência coletiva. Assim, a expectativa é que o aprendizado continue circulando entre as famílias, nas futuras produções artesanais e nas próximas gerações.
