O sargento da Polícia Militar Ederson Oséias Cordeiro Lira está no banco dos réus pelo homicídio de Kennedy Cardoso de Miranda, de 22 anos. O jovem morreu a tiros na madrugada de 25 de dezembro de 2024, no bairro Colônia Terra Nova, Zona Norte de Manaus. Natural de Autazes, no interior do Amazonas, o jovem viajou à capital para passar o Natal com a namorada e a família dela.
Naquele ano, Kennedy planejava aproveitar as festas de fim de ano ao lado dos familiares e, posteriormente, iniciar uma nova etapa da vida. Segundo o irmão, Robson, ele pretendia viajar para o Sul do país em janeiro de 2025 com a namorada, Leidiana, para trabalhar e abrir uma pequena empresa no ramo de metalurgia.
Kennedy chegou a Manaus sem avisar o irmão
Robson contou que estava trabalhando quando descobriu que Kennedy havia viajado para Manaus. O jovem teria pedido à mãe que não contasse a surpresa ao irmão.
Por volta das 18h do dia 24 de dezembro, Robson viu uma publicação de Kennedy nas redes sociais e perguntou se ele estava na capital. O irmão confirmou e disse que estava no Colônia Terra Nova.
Mais tarde, por volta das 21h, Robson voltou a conversar com Kennedy e perguntou onde ele estava. O jovem confirmou novamente que permanecia no bairro.
Já depois da meia-noite, por volta de 0h10, Robson enviou uma mensagem desejando Feliz Natal ao irmão. Kennedy respondeu, também desejou boas festas à família e contou que havia acabado de falar com a mãe.
Além disso, Robson ainda perguntou se ele iria visitá-lo no dia seguinte. Kennedy confirmou que pretendia ir à casa do irmão e perguntou se havia comida preparada. “Eu vou sim, amanhã eu vou aí”, teria respondido Kennedy.
De acordo com Robson, aquela conversa terminou por volta de 0h17. No entanto, às 00h24, ele recebeu uma mensagem da namorada do irmão informando que havia ocorrido um problema.
Jovem é baleado durante confraternização
Conforme o relato apresentado pela família durante o julgamento, um homem identificado como Ederson chegou ao imóvel onde Kennedy estava com a namorada e familiares.
Robson afirmou que Kennedy não conhecia o policial e que aquela era a primeira vez que o jovem estava naquela residência. Segundo ele, a confraternização ocorria normalmente antes da chegada do sargento.
Ainda conforme o relato, Ederson teria se aproximado de Kennedy, sentado diante dele e questionado quem era o rapaz. A abordagem teria provocado uma discussão.
Kennedy teria respondido pedindo respeito. Na sequência, segundo a versão apresentada pela família, Ederson sacou a arma que carregava na cintura e efetuou o primeiro disparo.
De acordo com Robson, Kennedy ainda tentou proteger a namorada, retirando-a da linha de tiro. Mesmo ferido, ele teria sido atingido por um segundo disparo na região da cabeça.
“Ele pegou com a mão por cima da cabeça da filha dele que estava na frente e atirou na testa e matou o meu irmão”, relatou Robson.
O irmão de Kennedy afirmou ainda que outras pessoas tentaram conter o policial durante a confusão e que João, cunhado da vítima, chegou a ser atingido por um estilhaço no braço.
Família descobre que acusado era sargento
Após os disparos, segundo Robson, Ederson deixou o local. Inicialmente, teria saído a pé e depois retornado para buscar o carro.
A família descobriu ainda naquela noite que o autor dos disparos era integrante da Polícia Militar. Robson contou que, até então, sabia apenas que ele era policial e posteriormente tomou conhecimento de que se tratava de um sargento.
Enquanto isso, Kennedy foi levado para uma unidade de saúde. Robson recebeu a localização e seguiu para o local, mas depois foi informado de que o irmão seria transferido para o Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio.
Ao chegar ao SPA, ele conversou com um médico, que informou que Kennedy apresentava duas perfurações provocadas por arma de fogo, uma na boca e outra na cabeça.
Após aguardar cerca de 40 a 50 minutos, uma ambulância chegou para realizar a transferência.
Por volta das 4h05 da manhã, Kennedy não resistiu aos ferimentos e morreu.
Jovem tinha planos para o futuro
A morte interrompeu os planos que Kennedy havia feito para 2025. Segundo Robson, o jovem trabalhava em uma metalúrgica em Autazes e pretendia viajar para o Sul com a namorada para tentar abrir o próprio negócio.
Ele mantinha um relacionamento de aproximadamente oito ou nove meses com Leidiana. “Meu irmão ia viajar para Curitiba com ela, com a Leidiana, que ia trabalhar para lá”, contou Robson.
Para a família, Kennedy era um jovem trabalhador, conhecido na cidade de Autazes e que não tinha envolvimento com atividades criminosas.
Família acompanha julgamento
Robson contou que só ficou frente a frente com Ederson durante a audiência realizada no fórum. Para ele, o reencontro trouxe sentimentos difíceis, mas a família decidiu aguardar a decisão da Justiça.
“A gente tem que se conter e esperar a Justiça de Deus e a Justiça aqui do tribunal”, afirmou.
Segundo Robson, a mãe de Kennedy permaneceu profundamente abalada desde a morte do filho. Durante o julgamento, testemunhas também prestaram depoimento, trazendo novos detalhes sobre a noite do crime.
Todavia, o irmão afirmou que acompanhar os relatos é doloroso porque a família acaba revivendo os acontecimentos e descobrindo novas informações.
Mãe relembra último contato com o filho
Durante o julgamento, a mãe de Kennedy também falou sobre a perda do filho caçula.
Ela contou que tinha cinco filhos e que Kennedy era o único que ainda morava com ela em Autazes. Os dois viviam juntos, e o jovem dizia que continuaria por perto mesmo depois de se casar.
“Meu filho era tudo pra mim. Eu tenho cinco filhos. Quatro homens e uma mulher. Ele era meu caçula. Morava comigo lá em Autazes. Só era nós dois”, declarou.
A mãe lembrou que Kennedy viajou para Manaus feliz para passar o Natal com a namorada e conhecer a família dela.
Na noite de Natal, os dois conversaram e trocaram declarações de carinho.
“Ele disse: mãe, eu amo muito a senhora. Eu disse: eu também, meu filho, eu te amo muito. A última palavra que eu tive dele”, contou.
Depois daquela conversa, a família recebeu a notícia de que Kennedy havia sido baleado.
“Meu filho não era bandido”, diz mãe
Abalada, a mãe afirmou que o filho era trabalhador e tinha planos de ajudá-la financeiramente. Ela também afirmou que Kennedy pretendia trabalhar no ramo de metalurgia e contribuir com as despesas da casa.
“Meu filho ia cuidar de mim. Ele botava as coisas pra casa comigo. Meu filho não era bandido, assassino e nem ladrão”, relatou.
Ao falar sobre o acusado, a mãe afirmou que não sente raiva, apesar da dor provocada pela perda.
“Eu só fico me perguntando e olho pra ele: por que tu fez isso? Por que tu fez isso com meu filho?”, declarou.
Para ela, a principal expectativa agora é que a Justiça esclareça o caso e responsabilize quem tiver culpa pela morte do filho.
Natal seguinte de muita dor
Robson também relatou como a família passou o primeiro Natal após a morte de Kennedy. “O Natal de 2025 não existiu mais”, afirmou. Segundo ele, naquele período permaneceu ao lado da mãe, que enfrentava o luto pela perda do filho.
Por fim, a família espera agora o resultado do julgamento de Ederson Oséias Cordeiro Lira. O caso segue sendo acompanhado pelo Tribunal do Júri, enquanto os familiares de Kennedy aguardam uma decisão sobre a responsabilidade do sargento pela morte do jovem.
