Uma liderança comunitária de 67 anos sofreu agressão e tentativa de homicídio na noite da última segunda-feira (31), nas proximidades da foz do rio Tapauá, interior do Amazonas. Após as autoridades tomarem ciência do caso, a polícia deteve os suspeitos na noite da última quarta-feira (3).
A vítima realizava atividades de vigilância ambiental em uma praia destinada à proteção de áreas de desova de quelônios quando quatro pessoas lhe abordaram. Segundo os relatos, o grupo agrediu a liderança com golpes na cabeça, efetuou dois disparos de arma de fogo. Um dos tiros atingiu a orelha da vítima.
Durante a ação, os suspeitos também ameaçaram destruir as bases de vigilância comunitária instaladas ao longo do rio Tapauá. A liderança recebeu atendimento médico e permanece em estado estável.
Dias antes da agressão, equipes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) realizaram uma fiscalização contra crimes ambientais na região.
Retaliação
Moradores levantaram a suspeita de que o ataque veio como uma retaliação às ações de conservação ambiental organizadas e executadas por povos indígenas e comunidades ribeirinhas ao longo do rio Tapauá. Todavia, o esclarecimento sobre essa hipótese virá após investigação.
Na região, a pesca possui papel fundamental na alimentação, cultura e economia das comunidades indígenas e ribeirinhas. Os moradores também desenvolvem iniciativas de manejo comunitário do pirarucu e de proteção territorial, atividades que vêm contribuindo para a recuperação dos estoques pesqueiros.
Apesar dos avanços, a continuidade dessas ações enfrenta dificuldades diante da falta de fiscalização, infraestrutura adequada e presença permanente do poder público.
Uma liderança comunitária, que também já foi alvo de ameaças, reforçou a necessidade de medidas de proteção.
“É necessária uma atuação conjunta contínua para garantir a segurança das comunidades e a continuidade dos trabalhos ambientais prestados pelos moradores. No momento, eles estão assustados e ainda mais vulnerabilizados”, relatou.
Coletivo do Pirarucu cobra medidas urgentes
O Coletivo do Pirarucu, que reúne aproximadamente 2,5 mil famílias indígenas e ribeirinhas envolvidas no manejo comunitário do pirarucu no Amazonas, encaminhou nesta sexta-feira (4), véspera do Dia da Amazônia, uma carta a autoridades estaduais e federais cobrando providências urgentes após o ataque.
No documento, a entidade relembra que a preocupação com a segurança de lideranças responsáveis por organizações sociais e atividades de vigilância já havia sido apresentada às mesmas autoridades em 2022.
A carta também destaca a importância da pesca para os povos indígenas e comunidades ribeirinhas do rio Tapauá e de seus afluentes. A entidade defende que isso é um resgate o histórico de organização comunitária em torno do manejo do pirarucu. O processo teve início em 2013, com o povo Paumari, e, posteriormente, se fortaleceu na região pelo Acordo de Pesca da Foz do Rio Tapauá.
Entre as preocupações imediatas do coletivo estão:
- A segurança da liderança atacada
- Investigação completa do crime
- Proteção das ações de preservação das praias de desova e de manejo do pirarucu que já estão planejadas e em andamento.
As atividades, conduzidas pelo povo indígena Paumari e por comunidades integrantes do acordo de pesca da Foz do Tapauá, estão previstas para ocorrer entre setembro e novembro.
Pedido por segurança
No resumo executivo da carta, o coletivo cobra a investigação e responsabilização pelos responsáveis pelo ataque. Além disso, a organização pede proteção das atividades de manejo previstas para 2026 e do fortalecimento da atuação dos órgãos públicos.
Entre as medidas solicitadas estão a presença efetiva da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (SEMA-AM) e do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), além do apoio do Ibama, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da Funai às ações de fiscalização.
O documento também pede reforço das forças de segurança, melhorias na infraestrutura utilizada pelas equipes de vigilância e fiscalização contínua da frota pesqueira comercial.
A carta ainda solicita medidas que garantam a continuidade das ações de manejo e ampliem a proteção das comunidades indígenas e ribeirinhas envolvidas na conservação ambiental ao longo do rio Tapauá.
